sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

FAITH NO MORE - Angel Dust (1992)


O rock atravessou no início dos anos 90 uma de suas fases mais prolíficas. Tínhamos o hard rock no auge, o surgimento do Grunge e o “Funk’o’Metal” -  mistura de funk e heavy metal, que tinha como maiores representantes Living Colour, Red Hot Chilli Peppers e Faith no More. 

O Faith no More talvez seja a banda dentre as citadas que menos se encaixe neste rótulo de “Funk’o’Metal”. Enquanto as outras privilegiavam a mistura básica de rock com funk, o FNM era muito mais complexo, adicionando à mistura elementos de hardcore, rap, pop, progressivo e até jazz e música clássica, muito em função da sua formação que contava também com um tecladista, o criativo Roddy Bottum. Essa miscelânea teve início em 1985 com o ainda irregular We Care a Lot, e se encorpou com os fantásticos Introduce Yourself, de 1987, e o multi-platinado The Real Thing de 1989, este último já com o genial vocalista Mike Patton no lugar de Chuck Mosely.

Sucessos estrondosos como o de The Real Thing (Epic, Falling To Pieces e Edge Of The World)tendem a  arruinar bandas inovadoras como o Faith no More. Pressionadas pelas grandes gravadoras, eles geralmente “pisam no freio” da originalidade e acabam perdendo a graça. Porém, os caras do FNM conheciam os perigos da indústria e, contrariando sua gravadora que queria um “The Real Thing 2”, decidiram trilhar um caminho diferente. Então, foi lançado em 1992 “Angel Dust”, trabalho que consolida o FNM como um dos grupos mais originais de sua geração.

O disco abre com “Land of Sunshine”, com seus compassos quebrados, teclados densos, guitarra distorcida no talo e um Mike Patton muito mais solto e maduro que o menino de voz nasalada do disco anterior. A música seguinte, “Caffeine”, um punk “torto” com compassos terciários e teclados belíssimos, abre logo com um sampler - artifício pouco utilizado por bandas de rock mainstream àquela época -, mostrando o quão inovador o FNM pretendia soar. A terceira música do disco é “Midlife Crisis”, 1º música de trabalho, um groovezão pesado com mais samplers e refrão pegajoso, que virou hit na Europa. Em seguida, pra segurar um pouco a onda na pancadaria mas não na originalidade, vem “RV”, balada com sotaque country e muita ironia na interpretação e letras de Mike Patton.

Everything’s ruined”, é provavelmente o que mais se assemelha ao Faith no More “pré-Angel Dust”. Batidão balançante, guitarras pesadas e teclados alegres numa música bem alto astral, que entraria facilmente em “The Real Thing”. Mas colocada ali propositalmente, para que ninguém se esquecesse de que aquela fase mais pop da banda era passado, “Malpractice” - que parece um encontro de Ministry com Mozart, cuja letra descreve o prazer de uma mulher ao sentir as mãos de um cirurgião em suas entranhas (?!?!?). Demais!!!

O petardo segue com “Kindergarten”, que também remete à fase mais popular da banda, e “A Small Victory”, a 2ª música de trabalho e 2º hit do álbum. Ela é descrita pelos próprios membros da banda como a música mais pop que eles já tinham escrito até então, apesar do interlúdio cheio de samplers com sons orientais e “barulhinhos”.

“Jizzlobber” é única música de “Angel Dust” escrita pelo guitarrista Jim Martin (que, insatisfeito com os rumos da banda, praticamente não participou do processo de criação), é a mais pesada do álbum. E para fechar o disco, duas covers: a bela instrumental “Midnight Cowboy”, de John Barry, e o hit pop dos anos 70 “Easy”, dos Commodores, em versão fidelíssima ao original, colocada pela gravadora no álbum para tentar alavancar as vendas, já que segundo eles, o disco era um “suicídio comercial”.

“Angel Dust” é um marco no mundo do rock. É a representação perfeita do equilíbrio entre o pop e a podreira, fórmula que gera frutos (bons e ruins) até hoje.  Bandas como Incubus, System of a Down e Deftones, citam o álbum como uma de suas maiores influências. Além disso, ao ir contra a corrente e lançar um disco tão diferente do que todos (crítica, público e principalmente sua gravadora) esperavam, o Faith no More deu uma aula de coragem e atitude! 

Por tudo isso, essa obra-prima será sempre lembrada como o melhor trabalho de uma das bandas mais originais de todos os tempos.


Ouça: "A Small Victory"

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